Em artigo, a cirurgiã-dentista Jessica Oliveira, do Seconci-SP, explica como o histórico de saúde do paciente influencia o atendimento odontológico e ajuda a prevenir complicações.
Por Jessica Oliveira | Cirurgiã-dentista do Seconci-SP
Quando um paciente chega para uma consulta odontológica, uma das primeiras perguntas feitas pelo cirurgião-dentista costuma ser sobre o uso de medicamentos e a realização de tratamentos de saúde. Embora muitas pessoas não percebam a relação dessas informações com a Odontologia, elas são fundamentais para garantir um atendimento seguro e adequado. Afinal, o dentista não cuida apenas dos dentes, mas da saúde da boca como parte integrante do organismo.
Diversos medicamentos podem provocar alterações na saúde bucal. Um dos efeitos mais comuns é a redução da produção de saliva, causando boca seca, quadro que pode ocorrer em pessoas que utilizam antidepressivos, ansiolíticos, anti-hipertensivos, anti-histamínicos e outros medicamentos de uso contínuo. A diminuição da saliva pode favorecer cáries, candidíase oral, dificuldade para mastigar, engolir e falar, além de ardência e desconforto. Outros medicamentos também podem causar aumento do volume da gengiva, alterações no paladar, úlceras e pigmentação da mucosa.
As informações sobre os medicamentos também influenciam diretamente o planejamento do tratamento. Pacientes que utilizam anticoagulantes, por exemplo, podem apresentar maior risco de sangramento durante procedimentos cirúrgicos. Isso não significa que a medicação deva ser suspensa por conta própria. A conduta deve ser definida pelo profissional responsável. Também merecem atenção os pacientes que utilizam medicamentos para osteoporose ou determinados tipos de câncer, como bisfosfonatos e outros agentes antirreabsortivos ou antiangiogênicos, que podem aumentar o risco de osteonecrose dos maxilares. Já tratamentos oncológicos, como quimioterapia, radioterapia, imunoterapia e terapias-alvo, podem provocar mucosite, infecções, redução da imunidade, alterações na produção de saliva e atraso na cicatrização, exigindo cuidados odontológicos específicos.
Outro ponto importante são as possíveis interações medicamentosas. Remédios prescritos pelo dentista podem interagir com aqueles que o paciente já utiliza, alterando seus efeitos ou aumentando o risco de reações adversas. Por isso, é fundamental informar todos os produtos utilizados, inclusive vitaminas, fitoterápicos, suplementos alimentares, hormônios, medicamentos para emagrecimento e produtos naturais. Ter acesso a um histórico completo permite ao profissional avaliar riscos e escolher a conduta mais segura para cada caso.
Não omitir informações sobre a própria saúde é, portanto, uma forma de contribuir para um atendimento odontológico mais seguro, individualizado e eficaz. Compartilhar com o cirurgião-dentista informações sobre doenças, tratamentos e medicamentos utilizados é um gesto simples que pode ajudar a prevenir complicações. A boca faz parte do corpo, e cuidar da saúde bucal também significa considerar a saúde como um todo.





